Mad Sex

Uma questão pela qual todo mundo se interessa, mas que, ironicamente, não é feita por aqueles que teriam todo o direito de fazê-la, é a “orientação sexual” a qual alguém pertence. Por ser um tabu, imagino.

Por me interessar muito pela questão de grupos (talvez pela má-disfarçada frustração de pertencer a tão poucos), para mim o caráter altamente normativo dos diversos grupos sexuais não pode ser ignorado, obviamente.

Poucas categorias de grupos são tão exigentes com os seus integrantes. Para nós, humanos, o critério de escolha de parceiros, ou parceiras, sugere determinar não apenas a nossa vida sexual passada e futura, mas também i) vestimenta, ii) gosto musical, iii) amigos mais íntimos, iv) padrão de linguagem, v) marcas escolhidas de produtos e até vi) padrões de comportamento não diretamente relacionados com sexo (tais como extroversão, ou capacidade de organização, ou tolerância).

Percebe-se também, pelo menos atualmente, a forte crença de que estes grupos sexuais, além de normativos, sejam também definitivos. Tal como acontece com os times de futebol no Brasil, com a política fora do Brasil, e, pelo menos ainda para alguns tantos fanáticos religiosos, com o casamento, a troca ou ambivalência em relação a estes tantos grupos sexuais não é facilmente esquecida, tampouco perdoada.

Mas, se para times de futebol, por exemplo, não há um grupo “inato”, inicialmente definido, o mesmo não é comumente aceito em relação aos grupos sexuais. Até há algum tempo atrás, me parece que se acreditava que todo humano nasceria como um bom e comportado heterossexual, sem exceções, perversões ou quaisquer outras “falhas” que o removessem da honrosa função de procriar mais humanos para a glória do Deus-Pai-Todo-Poderoso. Qualquer “desvio de conduta” seria fruto de algum trauma, ou demência; da mesma forma que muitos religiosos ainda crêem que toda criança nasça “temente à Deus”, e que, portanto, o ateísmo é o fruto de alguma falha moral (e nunca o resultado de, Deus nos livre, mero bom-senso).

Hoje, já parece ser mais comum a crença de que “alguns” humanos possam nascer preparados para o “lado oposto”. Até mesmo entre homossexuais extremistas essa idéia é alimentada e defendida. Talvez por resposta à nem tão antiga idéia de “patologia”, muitos gays, lésbicas, bi-sexuais e transgêneros defendem terem “nascido assim”, pura e simplesmente. Não nasceram com um time de futebol, nem com uma língua, nem com um gosto musical já definidos. Mas, dizem eles, nasceram com uma identidade sexual psicológica e/ou uma preferência sexual não só distinta da maioria “plain vanilla”, mas também totalmente (ou parcialmente, no caso dos “bis”) divergente da identidade sexual física. Parecem ignorar que, mesmo que uma característica comportamental, social e, claro, sexual tão complexa quanto o homossexualismo se tornasse verdadeiramente “inata” (através do surgimento, como que por mágica, de um punhado de genes que, combinados, determinassem inequivocamente a formação de tal personalidade), dificilmente essa característica sobreviveria a uma segunda geração. Pois homossexuais e afins, por definição, não tendem a ter uma descendência muito extensa de filhos, netos e bisnetos diretos. Por terem poucos descendentes, estes genes não sobreviveriam por muito tempo.

Deixando clara a minha opinião, não muito comum, mas tão óbvia, pelo menos para o meu jeito cientificista e arrogante de ser: genes só se interessam por heterossexuais. Para nossos genes, não só o homossexualismo é uma péssima idéia, como também o sexo anal entre homens e mulheres, o sado-masoquismo, a masturbação, as brincadeiras de médico e a geriatrofilia. Genes só se interessam por papais e mamães relativamente bem comportados, e totalmente responsáveis para com a sua extensa e barulhenta prole. E, eventualmente, também por estupradores (genes são cruéis). Qualquer outro comportamento é, no mínimo, pura perda de tempo (para eles, os genes; não para nós, ao que tudo indica).

Portanto, todo e qualquer outro padrão sexual é resultado de nossa imaginação. Nossa e unicamente nossa culpa. De maneira semelhante à literatura, à música, ao gosto por jogos de azar e aos juros altos dos bancos (mas não à guerra!), o grupo sexual ao qual um indivíduo pertence é fruto de influência marginalmente genética, e predominantemente cultural. Até mesmo o padrão “hétero” é também uma construção cultural, já que é composto não só de um certo tipo de desejo, mas também por uma série de comportamentos e gostos acessórios que “identificam” os integrantes deste grupo.

Em outras palavras, teu gosto sexual cai na vasta e reducionista categoria do “gosto” mesmo. De quase a mesma forma que o gosto por cores, por bebidas alcoólicas, por futebol, por ideologia política ou por maionese (urgh). Mas bastante limitado, ainda que não totalmente restringido, pelos grupos socio-sexuais disponíveis na cultura, na época e na comunidade em que tu vives.

Escolha um desses grupos, ou não. Faça o possível para se enquadrar piamente aos ritos, comportamentos, limites e excessos típicos a este grupo, ou arque com as conseqüências. Não precisa necessariamente te restringir ao que os genes determinam como sendo “o grupo correto” (até porque, por eles, nós deveríamos ainda estar vivendo em cavernas, e morrendo por volta dos 28 anos de idade). Mas pelo menos te esforça em lembrar que, no fim das contas, e por mais que seja bom, sexo é e continuará sendo apenas um detalhe.

Quem Não Tem Colírio Usa Óculos Escuros

Minha vó já me dizia:

“Quem não vive pra servir, não serve pra viver.”

O que me parece meio, hm, nobre, um tanto utópico, e definitivamente muito chato.

Não é, de forma alguma, a única afirmação equivocada dela. Uma velhinha reacionária, intrometida, machista, hipócrita e extremamente adorável, que Deus a tenha. Uma péssima pessoa, em vários sentidos, mas uma ótima avó.

Eu preferia que ela tivesse dito

“Quem não vive pra viver, não serve pra servir.”

Me soa muito melhor.

Mas ela nunca teria dito isso. Pena.

La La Love You

Eu amo, tu amas, ele ama.

Ela ama, mas ele não acredita.

Ele ama, mas não fala.

Amar é complicado. Em todos os sentidos.

O “amor romântico” talvez seja o pior, o mais complicado e sofrido. Mas o amor que temos pelos nossos pais, amigos, irmãos também não é simples. Me causa vários problemas, pelo menos.

Já aquele amor nem um pouco platônico, cheio de carne e espírito, é o pior, com certeza. Não só isso, é também pouco presente, ainda que superestimado obsessivamente por quase todos.

Eu o senti pouquíssimas vezes.

Pela minha primeira namorada (C.). E por uma terceira (P.), talvez, ainda que este tenha sido muito mais de carne do que de espírito. Muitas vezes me surpreendo lembrando dela, confuso. E em momentos embaraçosos.

Mas, estranha foi a última vez que estive nesse estado. A atual ainda não conta, ainda de “quarentena”. A vez anterior.

Me apaixonei pela sua voz, antes de vê-la. Pois não tinha como ver nada, estava bêbado. Sendo levado pra casa, por pessoas que eu nem conhecia direito, e que depois tive a oportunidade de conhecer, me tornando ao mesmo tempo grato e arrependido por isso.

Coisa besta, se apaixonar por uma voz. Mais estúpido que se embebedar. Menos controlável.

Desse dia, me esqueci quase tudo. Da sua voz, eu me lembro até hoje. E de seu rosto. E de seu corpo. E de seus ombros (é, eu adoro ombros).

Ela era linda.

Nunca foi minha.

E tenho medo dela até hoje.

The Hardest Walk

É, eu tô ligado que eu tenho dificuldade com coisas que, para os outros, são banais.

OK, eu também tenho facilidade com coisas que, para os outros, talvez sejam muito difíceis. Faz parte.

Mas enfim, o primeiro grupo é que me incomoda. E uma dessas coisas é, hm, caminhar. Tipo, andar mesmo. Pô, é complicado.

Primeiro, você tem que balançar os braços. E de forma oposta. Poxa, quando o direito vai pra frente, o esquerdo tem que ir pra trás! Sei lá, isso me perturba um pouco. A posicão adequada da cabeça em relação à coluna, e a dos olhos em relação ao solo também me causam um certo transtorno.

E a velocidade, então? Caramba, afinal, qual é a velocidade adequada para uma caminhada? Andar devagar me causa um pouco de ansiedade. Tipo, demora muito!

Por isso me acostumei a andar rápido. O mais rápido possível (ou seja, um pouco antes de entrar no estágio de marcha atlética). Com a idade, começou a me faltar um pouco de fôlego, mas tudo bem. Depois é só tomar um banho. E pelo menos é uma forma de exercício.

Mas o pior inconveniente não é o suor, ou as bolhas nos pés, ou os tênis que começam se esfarelar com poucos meses de uso. O pior, o mais irritante mesmo é o fato de que, por mais que você caminhe rápido, sempre vai aparecer alguém caminhando mais rápido ainda. Sempre. É inevitável.

Eu tô lá, pacificamente ultrapassando todo mundo na calçada, quando de repente passo por um moleque de 18 anos, que nem estava andando tão rápido assim, e esse filho de uma rameira, por algum motivo absolutamente irrelevante, decide que vai andar mais rápido que eu. Porra, porque foi decidir isso logo na hora que eu fui passar? Que saco, eu caminho rápido justamente por não querer a companhia, mesmo que momentânea, de ninguém! E fica aquele constrangimento, tipo, pô, eu deixo ele passar, ou aumento o passo? E se ele aumentar também? Será que, se eu rosnar pra ele, ele pára com isso?

Ou então aparece um cara, não se sabe vindo de onde, querendo dar uma de velocista. Eu ando rápido. E já tenho alguma agilidade nisso, afinal mais de 30 anos praticando. Mas de repente, ao meu lado, começa a passar algum transeunte com complexo de inferioridade andando a, no máximo, uns 0,0003 km/h a mais que eu. Sério, demora uns 3 minutos só pra conseguir me ultrapassar com um corpo de distância. Ultimamente eu até tenho parado, fico com pena. Pô, apareceu um cara que consegue ser mais maluco que eu, deixe ele passar, coitado.

Na verdade, os seres-humanos que se dizem normais podem perceber essa curiosa tendência humana no trânsito, não no de pessoas, mas no de automóveis. Às vezes você está dirigindo seu carro, com pressa, ou porque dormiu demais e está atrasado pro trabalho, como sempre; ou porque acabou de passar por um radar e sabe que o próximo vai demorar ainda 3 quilômetros para aparecer, o que causa, por algum motivo indefinido, que seu pé direito pressione um pouco mais o acelerador. O motivo não importa. O que importa, neste caso, é que, fatalmente, alguns carros irão automaticamente aumentar a velocidade quando você tentar ultrapassá-los.

Pois é, e as pessoas agem da mesma forma quando estão andando. E isso é muito, muito irritante. Afinal, para elas é uma opção andar mais devagar. Para mim, não! Eu não sei andar devagar. Eu me perco todo, caramba!

Mas poderia ser pior. Afinal, ainda não existe multa para pedestres com excesso de velocidade. Fiz bem em vender meu carro!

Friends Stoning Friends

Eu nunca fui exatamente de muitos amigos.

Na verdade, segundo o ilustre senhor que eu pago para ignorar as minhas lamentações e brincar de alquimista com o meu cérebro, eu tenho mais facilidade de estabelecer relacionamentos sexuais e/ou amorosos do que para ter amigos. Quando ele me disse isso eu pensei, é, e o transporte público de São Paulo é melhor que o da Somália. E o Corinthians vai ser campeão este ano. Grande vantagem.

Mas, bem ou mal, é verdade. Sou péssimo com amigos. Ruim em adquirí-los, pior ainda em mantê-los.

Mas pelo menos eu consigo categorizá-los. Digo isso independentemente da duração da amizade. Alguns eu mantive, outros perdi. Curiosamente, o fato de mantê-los ou perdê-los também parece estar relacionado com o grupo ao qual pertencem.

Já é alguma coisa! Assim, após esta um tanto óbvia e relativamente inútil epifania, percebi que eles se dividem nos seguintes grupos:

1. Os day-dreamers. Pessoas de um caráter que tende a ser bom, inteligentes, prestativas, tímidas, com um lado bastante nerd e/ou pseudo-intelectual.

Minha amizade com este grupo tende a ser duradoura e esparsa. São amizades que mantenho, mas com quem não faço muita questão de conviver diariamente. Sempre estão disponíveis; quer dizer, se ofendem com a falta de contato, mas prontamente o reestabelecem, se eu buscar a companhia deles. O que faz com que eu os deixe de lado, normalmente, claro.

2. Os ultra-sociáveis. O meu oposto: gente divertida, extrovertida, que gosta de ser o centro das atenções, que se veste muito bem, que não faz muita questão de demonstrar inteligência (por modéstia, ou muitas vezes por falta) e sem muita auto-crítica.

Eu tenho a tendência estúpida e irracional de gostar da companhia deste grupo. Mas, fatalmente, ela conduz a um caminho catastrófico, constituído, inevitavelmente, das seguintes etapas: i) aproximação, ii) interação, iii) racionalização, iv) agressão e iv) exclusão.

Ou seja, eles se aproximam, vendo a minha cara de cachorro sem dono; tentam interagir, inicialmente com algum sucesso; com o tempo, vêem que eu não respondo de forma aparentemente coerente; estabelecem alguma teoria bem fundamentada sobre essa falha de contato (por exemplo, que eu sou um psicopata-maníaco-demente-assassino, ou um pervertido sexual, ou um alienígena com planos de dominar a Terra, ou apenas muito sem-graça); arbitram um critério que justifique a minha exclusão, de uma forma que não os faça sentir terrivelmente culpados; e por fim, desaparecem da minha vista.

Mas, apesar do rancor difícil de disfarçar, sei que a culpa é minha.

3. Os aproveitadores. Como ando totalmente sem dinheiro, não me preocupam mais. E não é necessário maiores explicações.

4. Os simples. Gente direta, sem frescura. Que não guarda rancor, pois expõe imediatamente as frustrações, comigo, com a vida e com todo mundo.

O nome que atribuí a eles não condiz com a admiração e respeito que acredito merecerem. Mas, por sua própria natureza, imagino que concordariam com a alcunha.

5. Os coletores. Na verdade, à primeira vista podem ser confundidos com o tipo 2. Mas, mais do que gostar de atenção, eles precisam dela. Bebem, respiram e digerem atenção. Têm uma personalidade forte e carismática, mas que esconde uma incrível ausência de si mesmo. Líderes sociais, mas incapazes de utilizar essa liderança para um propósito útil, como, por exemplo, trabalho. Precisam estar rodeados de pessoas, pois parecem não existir enquanto estão sozinhos.

Confesso que é um tipo de pessoa pelo qual tenho algum facínio, ainda que mórbido. Em geral me desprezam, mas o sentimento é mútuo.

Normalmente não são rodeados por seus semelhantes, até porque daria briga. Mas, se conseguirem, tem grande chance de atingir o próximo estágio, a conseqüência natural, o nível super sayan, a fronteira final: a política.

6. Os raros. As exceções. Extrovertidos com capacidade de introjeção. Excêntricos. Tímidos mas de fácil convívio. Gente engraçada, mas que não tem vergonha de chorar. Gente triste, mas que sabe quando rir. Gente sem muita noção, mas que é séria, quando realmente precisa. Pessoas que atingiram aquele estado meio zen-budista de constante e saudável contradição. Que não precisam da desgraça ou da felicidade dos outros para serem, elas próprias, felizes.

E, claro, os que deveriam integrar os outros grupos, mas por terem alguma característica especial (como tolerância, por exemplo) parecem se dar bem com todos os outros tipos, inclusive, pasmem, comigo.

OLPC Fiasco

Eu sou um nerd. Mais especificamente, um geek. Entre outras coisas.

Por isso, no início, achei interessante a idéia do Notebook OLPC (One Laptop Per Child). Fornecer um computador barato para as crianças pobres. Bacana.

A idéia obviamente não deu certo. Na melhor das hipóteses, obrigou alguns fabricantes de notebooks a promover a criação de computadores móveis baratos, que poderiam ser fornecidos a crianças carentes, se os governos de seus países tivessem dinheiro o suficiente para comprar esses aparelhos, e se tivessem alguma idéia de como distribuí-los, de como treinar os professores a utilizá-los, etc.

Um dos ex-integrantes do grupo OLPC saiu correndo em pânico, xingando todo mundo, aparentemente. Ele explica bem detalhadamente o tamanho da encrenca, e como egos atrapalham uma idéia por si só já bem difícil de ser implementada. Um belo desabafo. Explica como o altruísmo inicial, meio utópico mas muito bem intencionado, de promover o “auto” estudo de crianças fornecendo um ambiente computacional construtivista virou mais uma forma de lucrar mais. Ou pelo menos de perder menos. In english:

http://radian.org/notebook/sic-transit-gloria-laptopi

How to Fight Loneliness

Acho que funciona da seguinte forma:

Cria um personagem. Um agradável e divertido. Ou inteligente, sei lá. Ou irônico. Ou compreensivo.

Que seja interessante; criativo, mas não muito. Que haja um padrão. Que seja fácil de “representar”, e de ser reconhecido. E que, principalmente, seja inofensivo.

Ele vai ser teu refúgio. Como um cheiro familiar. Uma foto de casa. Um refrão. Para todos aqueles que te conhecem.

Quando tu fores tu mesmo, e não teu personagem, eventualmente irás surpreender as pessoas. Às vezes incomodar. Pois todos nós somos muitas coisas, de uma complexidade difícil de assimilar. Temos medos e inseguranças, desagradáveis, irritantes, incompreendidas, lamentáveis.

Um acorde dissonante causa tensão, que precisa ser resolvida.

Quando esse deslize acontecer, lembra do teu personagem, pensa no que ele diria, fala, e estarás a salvo.

Fácil assim.

Ou então viva sozinho. A escolha é tua.

Eu fiz a minha.

From Russia with Love

He had two lives: one, open, seen and known by all who cared to know, full of relative truth and of relative falsehood, exactly like the lives of his friends and acquaintances; and another life running its course in secret. And through some strange, perhaps accidental, conjunction of circumstances, everything that was essential, of interest and of value to him, everything in which he was sincere and did not deceive himself, everything that made the kernel of his life, was hidden from other people; and all that was false in him, the sheath in which he hid himself to conceal the truth — such, for instance, as his work in the bank, his discussions at the club, his “lower race,” his presence with his wife at anniversary festivities — all that was open. And he judged of others by himself, not believing in what he saw, and always believing that every man had his real, most interesting life under the cover of secrecy and under the cover of night. All personal life rested on secrecy, and possibly it was partly on that account that civilized man was so nervously anxious that personal privacy should be respected.
Vai se foder! Russo filha da puuuuta! Muito foda, IMHO.

Na real não sei se me importo tanto com privacidade. Não mais.

Mas acho que entendo o que ele quer dizer. E acredito que privacidade não seja exatamente uma escolha. Está mais para uma obrigação. Um refúgio que se crê ser necessário. Todos precisam, ninguém sabe exatamente o porquê.

Seres-humanos.

Terror Twilight

Hoje eu acordei em desespero.

Por causa de um sonho. Eu tô esquecendo dele, queria me lembrar melhor. Parecia importante.

Eu tô num parque de diversões. Com uma namorada. Mas não consigo me lembrar exatamente quem era a mina. Enfim, sonhos.

Sei que a gente vai em direção a um brinquedo. Tipo um trem fantasma. Ela quer por que quer entrar nele. Já eu não tenho vontade; não sei porque, até gosto, mas nesse sonho eu estava determinado a não ir.

Ao entrarmos na fila para o brinquedo, percebo que um antigo colega de escola acabou de entrar em um dos vagões. Vou chamar ele aqui de Goche, de Gordo, Chato e Engraçado. Chato porque ele vivia no meu pé, no colégio, e eu não entendia porque. Me seguia por todo o lado, e isso me irritava profundamente. Engraçado porque todo mundo via ele desta forma, eu inclusive. O cara era hilário, de uma inteligência absurda, totalmente voltada a fazer comentários criativos, ligeiramente ingênuos, um tanto sarcásticos e sempre bem-humorados. E ele era bem gordo.

Bom, logo depois a minha namorada entra em um dos vagões, e eu fico do lado de fora, esperando. Eu estou feliz. E começo a fazer o que eu sempre faço, quando estou esperando alguma coisa: observar tudo e todos. As famílias que passam. A roda gigante, ao fundo. E lembro de escutar aquele som típico de parque de diversões, uma balbúrdia de risos, gritos, conversas e música. E todas essas imagens e sons sempre mudando.

E então noto uma menina, próxima a mim, parada, ao contrário de todas as outras pessoas. Feliz, aguardando também alguém. Olha fixamente para o brinquedo que eu achava ser um trem fantasma, mas que até agora não tenho certeza do que era. Ela é muito bonita, mas talvez mais pela expressão que possui do que por algum atributo físico em específico.

Quero falar com ela, mas o que eu iria dizer? Fico então congelado entre o impulso e a auto-crítica, como constantemente constumo fazer. Incapaz de ir até ela, incapaz de olhar para mais ninguém.

Para acabar com esse impasse, chega o tal Goche. Ele se aproxima da menina, sem notar que eu estava por perto, aparentemente. Eles conversam com intimidade. Ele não pára de falar, os mesmos insights bem-humorados que costumava ter quando éramos pré-adolescentes. Ela se diverte. Pelo visto são namorados. Mandou bem, Goche!

Percebo que eles estão prestes a sair dali, para ir para outra parte do parque. Então eu respiro fundo, busco no fundo do meu cérebro algum resquício de auto-confiança, absolutamente necessária sempre que eu me coloco na difícil e árdua tarefa de entrar em contato social com alguma pessoa conhecida, e vou em direção a eles.

“E aí Goche, beleza?”

E ele responde:

“Beleza!”

E vão embora.

Nada muito surpreendente. Eu tenho essa extraordinária capacidade de transformar amigos em desconhecidos. Afinal, não nos víamos a muito tempo, e eu não me esforcei em manter a amizade que possuíamos. Um sonho, afinal de contas, coerente, pelo menos até àquele momento. Ficou um pouco de mágoa por não termos conversado, mas fiquei feliz por ele. Na escola, eu sempre tive a impressão de que o que esse cara realmente precisava era de uma namorada (como se eu também não precisasse de uma, claro).

E aí eu percebo. E a minha namorada, aonde está?

Outras pessoas saem do suposto trem-fantasma, mas nada dela aparecer. Eu continuo esperando. Passam-se horas, acho (do jeito que “horas” se passam em um sonho, não me peça pra explicar). Ela sumiu. Será que ela saiu e eu não percebi? Onde afinal ela estava?

Uma sensação de solidão e impotência. Incapacidade de fazer qualquer coisa. Sem saber o que fazer, sem idéia de com quem reclamar. Um medo profundo, um terror.

A última coisa que lembro, antes de acordar, é de um funcionário do parque, bastante velho, fazendo o seu trabalho. Eu parado à sua frente, um pouco afastado. Embalagens de salgadinhos, pipoca, copos de refrigerante pelo chão. E mais ninguém.

Eu acordo, triste e sozinho. Demoro para sair da cama. Me levanto, saio do quarto.

Pela janela da sala de meu apartamento, vejo que o dia está lindo. Chego a comentar isso em voz alta, para ninguém. O céu de um azul brilhante. De uma beleza simples, que dói no peito.

E aí o medo vai embora.

Nota: o título é de um álbum do Pavement.

Old Rock

Eu ando escutando muita música eletrônica. Blips e blops. Idealism, Booka Shade, Trentemøller, Apparat, Nathan Fake, Richie Hawtin. Uns lances mais antigos também, como VNV Nation (é, não sei porquê, mas gosto, uma mistura de Psy com Industrial).

A electronica mais atual é surpreendente. O Rock estabeleceu um “paradigma” que provou ser bem difícil de quebrar. Aquele lance de frase + refrão. Batidas em 4 tempos. Solos de guitarra. Melodia + harmonia simples. Peso.

Todas as supostas “revoluções” na cena da música pop no máximo perverteram um, no máximo dois, destes itens. A electronica consegue quebrar todos. Músicas sem qualquer melodia e sem refrão. Batidas de 7 tempos.

Eu duvido que o Rock “morra”. E nem quero que isso aconteça. Ele continua gerando ótimos frutos, como o Queens of the Stone Age ou o Arctic Monkeys, pra ficar só nuns mais conhecidos. Mas eu não imaginava que a electronica fosse se tornar mais criativa que o Rock’n'Roll. Pô, som eletrônico e alternativo?! Eu cresci na década de 80, realmente não imaginava que fosse chegar a esse ponto… Mas hoje tem malucos como o Aphex Twin, que viajam pra caralho.

Me parece que o Rock ficou mais mainstream. Ou velho mesmo. Nunca vai se apagar, acho, mas de repente, daqui umas décadas, vá virar uma anã branca…