Pra um (pretenso) zen-budista, tudo passa a ter uma matiz um pouco diferente. O mundo tem um “gosto” diferente, não melhor, nem pior, mas um prato, de qualquer forma, totalmente distinto do que, imagino, seja o normal.
Até mesmo outras religiões.
O cristianismo tem uma história totalmente diversa do Zen. O Catolicismo Romano foi fortemente influenciado pela filosofia clássica greco-romana. Platão e Aristóteles estavam longe de serem cristãos, mas acho que aceitariam com facilidade, senão os valores, pelo menos a forma como o cristianismo moderno vê a realidade.
O cristianismo, apesar dos pesares, é racional.
Claro, algumas de seus fundamentos não parecem fazer muito sentido, à primeira vista. O “non-sequitur” do qual mais gosto, para o qual eles exigem que não usemos a razão, e sim a fé, é quase que o alicerce a partir do qual todo o resto foi desenvolvido: a santíssima trindade. O “em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo”.
Deus, uno, é também três. Deus, Pai, é também filho. Jesus é filho de Deus, assim como nós também somos. Mas também é Deus feito homem, não à Sua imagem, mas a Sua própria essência.
Isso não fazia o menor sentido para mim, antes de me interessar pelo Zen. Agora, soa quase como um Kōan. E um dos bons!
Pai: passado, o certo, o justo e determinado, o karma adquirido, o que e quem fomos, história, o que nos influencia e nos fez ser o que somos.
Filho: futuro, o possível, o incerto, o que seremos, o que poderemos ser a partir do que somos.
Espírito Santo: a ausência de ego, o presente, o vazio. Não o que somos, mas nós mesmos. Aquilo que é, ainda que ausente de propriedades, de forma, ou de conteúdo. O eterno, que não morre, que não sofre karma e nem se transforma.
Se eu estiver certo, sequer é relevante se o Deus cristão “existe” de fato, ou não. Pois não faz diferença. Se ele é, como se diz, esses 3, então ele é, afinal de contas, como nós. Mesmo que não tenha uma existência separada de nossa cultura, mesmo que ele tenha sido não o criador, mas um personagem inventado por nós, esse personagem também sofre karma. Esse personagem também tem passado, presente e futuro. Este personagem também está preso a este mundo, em nós mesmos, e também nos influencia.
Não sei quanto ao céu, mas aqui, ele é o que nós permitimos que ele seja. Ele é o que nós percebemos Dele. Esse “Deus cognitivo”, o Deus percebido, também vive e se transforma. E sofre. E nos aconselha. Assim como todos nós vivemos, nos transformamos e aconselhamos os outros.
Se eu estiver certo, o cristianismo tem muito mais de Zen do que alguns imaginam.
Se eu estiver certo, o relevante não é crer ou não em Deus. Mas como permitimos que ela se manifeste. Podemos ignorá-lo, mas muitos não fazem isso. E é preciso entender como este Deus manifesto se comporta. O que ele exige.
Se Deus é bom, e todos acreditamos nisso, porque ele continua exigindo tantos sacrifícios?
Se Ele se manifesta em nós, porque não fazemos o possível para que esta manifestação seja, de fato, boa, correta e justa?
Somos livres, por Ele e independente Dele. Ele existe, por nós e independente de nós.
E devemos aprender a conviver com isso.
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parabens pelo post, concordo com todas as letras , somos livres para tomar nossas decisões !!
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