Uma questão pela qual todo mundo se interessa, mas que, ironicamente, não é feita por aqueles que teriam todo o direito de fazê-la, é a “orientação sexual” a qual alguém pertence. Por ser um tabu, imagino.
Por me interessar muito pela questão de grupos (talvez pela má-disfarçada frustração de pertencer a tão poucos), para mim o caráter altamente normativo dos diversos grupos sexuais não pode ser ignorado, obviamente.
Poucas categorias de grupos são tão exigentes com os seus integrantes. Para nós, humanos, o critério de escolha de parceiros, ou parceiras, sugere determinar não apenas a nossa vida sexual passada e futura, mas também i) vestimenta, ii) gosto musical, iii) amigos mais íntimos, iv) padrão de linguagem, v) marcas escolhidas de produtos e até vi) padrões de comportamento não diretamente relacionados com sexo (tais como extroversão, ou capacidade de organização, ou tolerância).
Percebe-se também, pelo menos atualmente, a forte crença de que estes grupos sexuais, além de normativos, sejam também definitivos. Tal como acontece com os times de futebol no Brasil, com a política fora do Brasil, e, pelo menos ainda para alguns tantos fanáticos religiosos, com o casamento, a troca ou ambivalência em relação a estes tantos grupos sexuais não é facilmente esquecida, tampouco perdoada.
Mas, se para times de futebol, por exemplo, não há um grupo “inato”, inicialmente definido, o mesmo não é comumente aceito em relação aos grupos sexuais. Até há algum tempo atrás, me parece que se acreditava que todo humano nasceria como um bom e comportado heterossexual, sem exceções, perversões ou quaisquer outras “falhas” que o removessem da honrosa função de procriar mais humanos para a glória do Deus-Pai-Todo-Poderoso. Qualquer “desvio de conduta” seria fruto de algum trauma, ou demência; da mesma forma que muitos religiosos ainda crêem que toda criança nasça “temente à Deus”, e que, portanto, o ateísmo é o fruto de alguma falha moral (e nunca o resultado de, Deus nos livre, mero bom-senso).
Hoje, já parece ser mais comum a crença de que “alguns” humanos possam nascer preparados para o “lado oposto”. Até mesmo entre homossexuais extremistas essa idéia é alimentada e defendida. Talvez por resposta à nem tão antiga idéia de “patologia”, muitos gays, lésbicas, bi-sexuais e transgêneros defendem terem “nascido assim”, pura e simplesmente. Não nasceram com um time de futebol, nem com uma língua, nem com um gosto musical já definidos. Mas, dizem eles, nasceram com uma identidade sexual psicológica e/ou uma preferência sexual não só distinta da maioria “plain vanilla”, mas também totalmente (ou parcialmente, no caso dos “bis”) divergente da identidade sexual física. Parecem ignorar que, mesmo que uma característica comportamental, social e, claro, sexual tão complexa quanto o homossexualismo se tornasse verdadeiramente “inata” (através do surgimento, como que por mágica, de um punhado de genes que, combinados, determinassem inequivocamente a formação de tal personalidade), dificilmente essa característica sobreviveria a uma segunda geração. Pois homossexuais e afins, por definição, não tendem a ter uma descendência muito extensa de filhos, netos e bisnetos diretos. Por terem poucos descendentes, estes genes não sobreviveriam por muito tempo.
Deixando clara a minha opinião, não muito comum, mas tão óbvia, pelo menos para o meu jeito cientificista e arrogante de ser: genes só se interessam por heterossexuais. Para nossos genes, não só o homossexualismo é uma péssima idéia, como também o sexo anal entre homens e mulheres, o sado-masoquismo, a masturbação, as brincadeiras de médico e a geriatrofilia. Genes só se interessam por papais e mamães relativamente bem comportados, e totalmente responsáveis para com a sua extensa e barulhenta prole. E, eventualmente, também por estupradores (genes são cruéis). Qualquer outro comportamento é, no mínimo, pura perda de tempo (para eles, os genes; não para nós, ao que tudo indica).
Portanto, todo e qualquer outro padrão sexual é resultado de nossa imaginação. Nossa e unicamente nossa culpa. De maneira semelhante à literatura, à música, ao gosto por jogos de azar e aos juros altos dos bancos (mas não à guerra!), o grupo sexual ao qual um indivíduo pertence é fruto de influência marginalmente genética, e predominantemente cultural. Até mesmo o padrão “hétero” é também uma construção cultural, já que é composto não só de um certo tipo de desejo, mas também por uma série de comportamentos e gostos acessórios que “identificam” os integrantes deste grupo.
Em outras palavras, teu gosto sexual cai na vasta e reducionista categoria do “gosto” mesmo. De quase a mesma forma que o gosto por cores, por bebidas alcoólicas, por futebol, por ideologia política ou por maionese (urgh). Mas bastante limitado, ainda que não totalmente restringido, pelos grupos socio-sexuais disponíveis na cultura, na época e na comunidade em que tu vives.
Escolha um desses grupos, ou não. Faça o possível para se enquadrar piamente aos ritos, comportamentos, limites e excessos típicos a este grupo, ou arque com as conseqüências. Não precisa necessariamente te restringir ao que os genes determinam como sendo “o grupo correto” (até porque, por eles, nós deveríamos ainda estar vivendo em cavernas, e morrendo por volta dos 28 anos de idade). Mas pelo menos te esforça em lembrar que, no fim das contas, e por mais que seja bom, sexo é e continuará sendo apenas um detalhe.
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Já faz um tempo, não sei bem a partir de quando, passou-se a explicar tudo usando a genética. Aquilo que não conseguimos aceitar ou, muitas vezes, simplesmente não podemos justificar tem um fundamento genético. Se antes e, em alguns casos, até hoje as explicações eram baseadas nos mitos, penso que apenas elegemos novos mitos para explicar aquilo que não nos é confortável!
bjo…