Saca só. Imagina que tu tem que fazer o teu trabalho, e que é numa oficina mecânica.
Que consiste em vários lances. Funilaria, pintura, geometria e balanceamento. Martelinho de ouro. Elétrica e injeção eletrônica. Espelhamento e pintura. E etc.
Aí vem uma cliente, com um carro meio fodido. Chega pra ti, que é o corno do mecânico. E fala que precisa de um orçamento pro carro dela.
Tu faz o orçamento, que tá caro, mas é o preço. E aí vem a pergunta. Mas porque tá tão caro, hein? O que que tem de tão difícil em resolver um barulhinho no motor?
Se tu te encontrares um dia nesta situação (ou em uma semelhante), meu filho, te aconselho no seguinte: não fala a verdade. Nem começa. Melhor, nem mesmo imagina qual seria o esforço necessário para dar início a um argumento próximo de uma avaliação minimamente intelegível e coerente sobre o que precisa ser, realmente, feito.
Na miopia do senso comum, por ser a verdade complicada, conclui-se que falar a verdade é complicar. E ninguém gosta de gente que complica, porra.
Respira fundo e nem fala da rebimboca da parafuseta, nem da válvula dentada do virabrequim. Fala que o preço das peças da Citroën é assim mesmo. Fala que, se a doutora quiser, a senhora pode procurar uma outra oficina. Fala que não tem outra possibilidade, de jeito nenhum, que o valor é esse. Que não tem jeito de ficar mais barato. E depois que ela chorar mais um pouco, fala que vai baixar a mão de obra em R$ 30,00. E aí ela vai ficar feliz, e aí tu pode até puxar conversa.
Ela não precisa que um cara engraxado e com insuficiência odontológica discorra, durante 17 minutos, sobre os reais problemas causados pela entropia ao agir em um sistema eletro-mecânico-locomotivo em particular (e que por um acaso é de propriedade e de uso dela). E tu não precisa de mais dor de cabeça; consertar o carro dela já vai ser foda o suficiente.
Ela tem dinheiro pra gastar e um problema pra resolver. Se ela tivesse algum interesse por mecânica, ela mesmo arrumaria o carro.
Bons mecânicos devem possuir duas virtudes: a de fazer o trabalho com um mínimo de competência e a de não explicar, de verdade, coisa nenhuma. Precisam ser eficientes na prática e cínicos no discurso. Devem ser criativos, objetivos, seguros de si e, essencialmente, falsos. Devem trazer um carro de volta à vida enquanto contam uma linda e divertida história sobre o Sapo Pimpão no Mundo Mágico da Manutenção de Câmbio e da Reparação de Suspensão Automotiva.
Mas se isso tudo te parecer injusto, lembra que tu tens a vantagem de poder ganhar uma grana quando a dona vier de novo, e o carro não tiver, dessa vez, nenhum problema. Nesse caso deverás manter a fábula do anfíbio citada acima (e também a negociação dos R$ 30,00 de desconto).
Porque, quando a verdade não interessa, o preço é o mesmo.
